quinta-feira, 11 de março de 2010

A compra mal sucedida do ano



Louro e flor de sal imersos em azeite extra virgem. Quem duvidaria dessa combinação? A partir de agora, você pode duvidar. Entusiasmado pela embalagem esguia e elegante e pelos ingredientes marinados no azeite, decidi me proporcionar uma pequena extravagância pagando R$ 37 por 750ml, no Pão de Açúcar (local onde venho sendo assaltado constantemente sem o uso de armas. Assaltado por eles, que fique claro.). Cheguei em casa louco para provar, agitei o vidro para que a flor de sal e o louro soltassem ainda mais seus sabores e derramei uma quantidade generosa em um prato, peguei um pedaço de pão, besuntei-o e enchi a boca.


Imediatamente meu sorriso se desmanchou e meu entusiasmo se derreteu como gelo no asfalto. O que parecia ser um elixir dos deuses se mostrou ser um ingrediente digno de fazer os deuses vomitarem (estou sendo exagerado, mas quem não seria depois de ter pago esse absurdo por um azeite de merda?). 


Não sei se peguei uma safra ruim, se meu paladar não bateu com o produto, mas me senti enganado por esse azeite pretencioso e ordinário. Acabamos usando-o para tostar legumes na panela e voltamos ao mercado na mesma semana para ter o socorro de algum bom e velho azeite guerreiro.

Aos que provaram o azeite Azal Temperamento e gostaram, me permitam duvidar de seu paladar. Aos que não gostaram, sintam-se acolhidos por mim. Aos que não provaram, não comprem. E tenho dito!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Postagens Póstumas: 01. Téo no DOM


Quanto pode significar 12 meses em uma vida?

Depende da vida, claro.
Da porta.
Da cara de pau.
Das circunstâncias.
Dos que a gente quer bem.
Dos que temos que conviver.
Mais dos sim, do que dos não.
Depende.

Postagem póstuma de aniversário.

Há quase 12 meses atrás, fui surpreendido por um dos mais singulares presentes do meu repertório. R, amante das antigas, já havia sido repreendido por excessos pontuais de presentes muito bem colocados. Não tinha como retribuir e, suportado por uma criação simples, não tinha como aceitar tantas demonstrações de cunho material. Logo vinha meu aniversário, depois do último manifesto repressor que fiz. Chegou um envelope, simples, só com volume de papel. Pouco papel. Entendeu, pensei, uma carta sincera me basta por hora. Uma carta sincera com um convite de jantar no DOM! Quando vi aquele convite, estremeci. Um sentimento de surpresa se misturou com gratidão e vontade de dar umas palmadas, pois realmente a criatura não aprendera a lição que eu acreditava ter dado.

Demorei uns 2 meses para conseguir conciliar minha agenda com as datas disponíveis no DOM. Vencendo isso, me deparei com uma experiência única do início ao fim.

Como R vive em Brasília, acabei encarando o jantar sozinho, o que me fez perceber bem os detalhes e criar um laço interessante com os garçons, que me explicaram todos os maravilhosos pratos que me foram servidos no menu degustação de 5 pratos. Todos anotados e desenhados em meu moleskine.

Texturas, temperaturas, sabores e estéticas se misturaram com o objetivo bem traçado de quebrar qualquer ideia pré-estabelecida por mim. Mas, antes de iniciar toda essa odisséia de sabores, gostei da sensibilidade deles em saber das possíveis restrições na minha alimentação antes de preparar o tal jantar. Na época, ainda não havia parado de comer carne, mas já andava dando bons passos na ideia de bem-estarismo, o que me fez solicitar que não utilizassem vitella em nenhum dos pratos, nem como base para rotí. Observação respeitada, tive a oportunidade de experimentar uma sensação que só havia me abraçado na infância e em alguns momentos em que descobri coisas inéditas da vida em minha adolescência: não saber como reagir ao me deparar com o novo. Ao sentir determinados sabores e combinações de texturas e temperaturas, não sabia se ria, se soltava alguns pequenos gemidos de prazer... simplesmente, me deixei levar por esse sentimento nostálgico e novo, que me marcou pra sempre.

Abaixo, alguns registros dessa experiência maravilhosa.




Eu sei, as ilustrações vão até o número 6 e as legendas não. Relevem...


R. muito obrigado pelo presente inesquecível e pela matéria-prima valiosa para minha escrita aqui. Foram 12 meses "perturbados" pela ideia desse registro. Que bom ter te conhecido e ter desfrutado dessa tua desobediência fascinante.

Recado ao DOM: uma das grandes surpresas foi poder observar a nota na abertura do cardápio: "O DOM reconhece sua primeira vocação: ser brasileiro! Por isso, não usamos trufa e foie gras na composição dos pratos.". Isso me comoveu e, hoje, observando, acredito que Alex Atalla poderia expressar mais um suspiro de vanguarda e propor ao seu público um menu degustação vegetariano (e, por que não, vegano?). Associar a discussão da ética ao prazer é algo motivante e, sem dúvida, um passo rumo à reformatação do futuro.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Francês de olhos puxados

Essa temporada sem escrever aqui no blog me trouxe uma série de inquietações. Muitas fruto da impossibilidade de habilidade e tempo pra colocar determinadas criaturas no mundo. Mesmo sem escrever, não parei de me aventurar pelo universo da gastronomia. Sem colocar a mão na massa, em função de não conseguir executar tarefas básicas, como cortar um tomate ou descarcar alhos, mas com o apetite e a curiosidade de sempre acentuados. Mais do que nunca, passei a encarar a comida como uma compensação das merdas da vida. Mesmo dentro de uma ótica positiva, merda é merda. Aprendemos com os tropeços, nos tornamos pessoas melhores, mas os calos não deixam de doer por isso.

Nessa temporada de busca por compensações, acabei sendo levado por duas amigas a um restaurante super charmoso, lá na Vila Madalena, o Les Delices de Maya. Segundo elas, eu precisava conhecer o tal lugar e experimentar uma massa super especial preparada pela Maya, chef e dona daquele cantinho charmoso. Como se trata de um prato que ela prepara quando dá na telha, pelo que pude entender, acabamos dando sorte em chegar lá e ser o dia do macarrão cozido em algas com gengibre e farofa de gergelim. Estranho e delicioso, na mesma proporção. A versão original vem acompanhada de camarões, mas pedi que a chef fizesse uma versão vegetariana pra mim. A adaptação foi digna de sucesso de bilheteria.

Quando o prato chegou, vivi o que há anos não acontecia: experimentar algo novo, tão longe das suas referências, que você mal sabe como reagir. É quase como uma criança descobrindo o mundo e tendo espasmos de admiração. As garfadas vieram acompanhadas de felicidade e resmungos de prazer. No final do prato, fui obrigado a jogar fora minha elegância e pedir que me servisse mais uma porção.

Além do prato delicioso, fomos atendidos de maneira especial e carinhosa, com direito a dicas de livros e histórias de vida.

Finalizamos o almoço com uma rodada de sobremesas: cheesecake com calda de frutas vermelhas pra mim, pudim de leite pra Ci e bolo de chocolate sem farinha pra Andrea. Claro, as sobremesas passaram pela boca de todos, pois é inaceitável enfrentar tantos sabores maravilhosos sem compartilhar com quem divide a mesa com você. Ainda mais quando falamos de doces!

Esse cantinho merece ser descoberto. Vá até a Morato Coelho, 1044. Além de ter uma refeição incrível, aproveite para levar as caldas e molhos especiais para salada que a chef Maya Midori prepara. Eu levei um molho de framboesas com azeite e balsâmico que quase transcendeu minha relação com as folhas verdes.

Andrea e Ci, muito obrigado pela descoberta!



















Nessa aventura, descobri John Fante.
Ouça "Crazy", na versão da Norah Jones depois de ler essa postagem.
A imagem daqui é uma composição que fiz a partir de uma foto que achei na internet. Não sei pra quem dar os créditos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sobrevivendo com uma mão

Aos 29 anos, debutei minha primeira fratura. Num pulo exagerado e desmedido, levei um dos maiores e mais ridículos tombos da minha vida, resultado de uma voadora mal sucedida que tentei (essa palavra merece grifo) dar na minha amiga, parceira de moradia e de kung fu. Sim, a tão citada Vanessa!
A queda, além de muita dor, me rendeu uma batida na bacia, ferimento no tornozelo e uma fratura na mão esquerda. Além de cuspir no piso de casa, de tanta dor que senti nesse tombo de costas limpas no chão, pude comprovar duas grandes coisas: é fácil se dar mal e tenho mais sorte que juízo.

Na volta do hospital, tomado pela fome devastadora, iniciei a odisséia de uma vida maneta. Se adaptar à tarefas simples é mais complicado do que eu imaginava. Um ossinho chamado escafóide conseguiu transformar minha vida num relato de gafes e incapacidades.

Digitar essa postagem, comer (arroz é medalha de ouro no drama da alimentação), tomar banho, limpar a bunda, escovar os dentes, amarrar os cadarços e outras tarefas ordinárias se tornaram um verdadeiro caso de superação pessoal. 

Numa virada brusca, comecei a ver o quanto pequenas coisas que não damos valor ou sequer sabemos que existem em nosso corpo, podem tornar a vida bastante difícil. Isso me fez despertar grato dia após dia, pelo corpo perfeito que tenho (em funcionamento, gente, que fiquer claro, pois a consciência das pernas finas e do nariz avantajado ainda habita esse ser) e pela oportunidade que tive de não me meter numa encrenca maior. Nesse período de, mais ou menos, dois meses de gesso, me afastei das operações culinárias, mas ganhei vários convites de jantares, com direito a vinho e carona. Além de bancar o convidado, me tornei um palpiteiro de mão cheia (aguardem a leva de trocadilhos infames como esse!) e acabei abrindo alas à novas e deliciosas experiências.

Abaixo, o registro fotográfico da paródia de mim mesmo.





Desenvolver novas técnicas para as velhas tarefas é uma maneira digna de não enlouquecer. Palmas, só na versão surdo-mudo ou batendo no peito. Imagine todo o resto!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sem comentários

Minha gente, esse assunto sempre foi uma perturbação na minha vida. Até que enfim, algum ser dotado de paciência e perseverança fotografou uma série de produtos e suas respectivas embalagens e fez esse comparativo maravilhoso em registro ao horror gastronômico configurado por essas potências do "bom gosto". Olhem o excremento culinário e se identifiquem com a frustração de cada embalagem de comida industrializada que você já abriu na vida.































Miséria de paladar e photoshop enganando a boca do povo!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sal pra toda obra


Adoro amigos que viajam. Adoro amigos que contam histórias de viagem. E adoro mais ainda amigos que estendem a viagem para sua vida criando novas histórias com você. Dani Lin, uma amiga de São Paulo, do mais alto quilate, viajou há pouco tempo para Nova Iorque para curtir dias de férias com algumas amigas. Bem a la Sex and the City.

Na volta, além de muitas histórias e fotos lindas (as quais ainda se mantém em carácter teórico), ela me trouxe um presente surpreendente: um frasco com seis compartimentos recheados com diferentes tipos de sais. Sais para cozinhar!


Isso inclui
sal vermelho do Hawaí,
sal defumado,
sal de Guerande,
sal puro do oceano,
sal preto eurasiano e
sal rosa do Himalaya.
Sal a dar com pé!


Não fazia ideia que o mundo poderia nos reservar tanta variedade desse tempero indispensável. Uma viagem alucinante pra você chacoalhar e dar um toque de verve a qualquer prato.

Fiquei apaixonado pelas possibilidades que esses sais trouxeram pra minha cozinha e pela sensibilidade da minha querida amiga. Agora, devo criar vergonha na cara e oferecer um jantar em agradecimento a esse ingrediente que colocou qualquer traço de mediocridade na cozinha para viajar. E pra bem longe!



Dave's Gourmet é o fabricante do Insane Seasonings.
Ô, salzinho bom pra temperar a vida.